ALGUÉM LÁ EM CIMA GOSTA DE MIM

Costumo dizer há um bom tempo, em situações especiais, que “alguém lá em cima gosta de mim”, e sempre sou corrigido pela minha família que coloca a coisa no plural dizendo que “alguém lá em cima gosta de nós”; e o que importa na realidade é que “ELE” gosta realmente, e assim, explico o motivo pelo qual hoje estou enviando esta carta, escrita na forma de agradecimento por estar vivo, por continuar vivo.

Retornava de São Carlos para Jaú neste último dia 4 de outubro [2005], quando por volta das 14:20 hs ao passar pelas cercanias da cidade de Ribeirão Bonito, deparei-me com uma queimada de mato na Fazenda Santa Lourdes, sob a responsabilidade do Sr. Clever de Ponte.

Cuidando, como manda o bom senso, da minha própria segurança, diminui a velocidade para cerca de 80 km, e fiquei aguardando um caminhão decidir-se entrar ou não no bolo de fumaça que atravessava a pista de rodagem; e como ele decidiu-se pensei que poderia ser uma pequena fumaça e o segui, vendo-o à cerca de 200 metros à minha frente, quando de repente, não mais que de repente, ele desapareceu e então, por medida de segurança, diminui mais a velocidade, reduzindo para cerca de 65/70 km horários, quando, para meu espanto e surpresa, foi colhido por um ônibus da empresa Reunidas Paulista que faz o percurso circular entre São Carlos e Ribeirão Bonito, o qual estava certamente à 120 km horários, haja vista os extensos estragos causados no meu Santana que certamente terá decretada PT, ou seja a perda total pela seguradora; e também pela violência da pancada, que me lançou em diversos rodopios, já com as rodas traseiras travadas na carcaça retorcida, cruzando para o outro lado pista e ficando encravado no barrando (macio pela ação das chuvas daqueles dias), na posição de quem retorna para São Carlos, justamente o inverso do meu sentido de direção no ato da colisão.

Vem, logo em seguida, percebi um caminhão do DER, que parecer ter parado naquela hora no acostamento, logo à minha frente, do qual desciam várias pessoas que vieram, juntos dos ocupantes do ônibus, me socorrerem. Grita um daqui, outro dali, todos mais nervosos que eu, aparentemente desesperados pelo cheiro de gasolina do meu carro e o risco de fogo ou explosão, e logo conseguiram abrir de forma parcial a porta do acompanhante do motorista, por onde pude sair, ainda tonto, mas bravo e indignado com o motorista da Reunidas, que se atreveu a cruzar uma nuvem de fumaça, na qual tinha acabado de ver desaparecerem um caminhão e meu carro, em alta velocidade.

Encontrei o motorista, requisitei o crachá dele, que mantive em meu poder até a chegada da polícia, à qual entreguei; e fechando ainda mais a fumaceira, eis que aparece um caminhão em alta velocidade que quase chocou-se com a Reunidas e quase atropelou diversas pessoas que estavam cruzando a pista para ver o estrago causado no meu veículo. Sentimos naquele momento, todos nós, que deveríamos subir para cima dos barrancos, o que todos fizeram em questão se segundos, do qual somente descemos quando o vento amainou e diminuiu a fumaça, retornando a estrada à ordem natural.

Logo a seguir, aparece todo lampeiro uma pessoa dirigindo uma caminhonete de cor bordô, chapa BQT 8125, parando na beira da pista e dirigindo-se com outros acompanhantes para o pasto em chamas; o qual ao retornar, coçando a cabeça, parou perto de mim; quando perguntei a ele a quem eu deveria agradecer o fogo e ele respondeu que era à ele mesmo. Perguntei então o nome da Fazenda que disse ser Santa Lourdes e seu nome que era Clever de Ponte.

Indignado, perguntei a ele, se era lavrador à muito tempo e diante da sua confirmação, perguntei como poderia ele ter ateado fogo à beira da pista, sem autorização do DER, sem manter equipamentos de proteção e pessoas sinalizando e ele simplesmente disse que quando colocou fogo o “vento estava para o outro lado”, ao que perguntei também se ele como lavrador, nunca tinha visto o vento mudar de lado rapidamente. em seguida, ele percebendo o caminhão do DER, quis jogar a culpa no DER que estala lá para sinalizar, mas não havia sinalizado e pediu que eu confirmasse isto quando viesse o policial rodoviário. Disse-lhe então que confirmaria que vi o caminhão e as pessoas, mas que não sabia quando tinham chegado, pois a minha impressão era que chegaram segundo depois que fui abalroado. Aí então o Sr. Clever virou uma fera, brigou comigo, com o motorista do ônibus e outras pessoas, encheu as paciências do policial e acabou indo embora dizendo que todos queriam prejudicá-lo, o que somente prova que nosso maior crítico é a nossa consciência.

Atordoado sem poder entrar no carro, nem percebi que o vidro de trás havia sido quebrado e retirado parcialmente, liguei para casa e pedi à Mitiko que acionasse o seguro, e fiquei esperando o que poderia acontecer, em local desconhecido, com pessoas desconhecidas, sendo que logo depois apareceram dois policiais militares da cidade de Ribeirão Bonito, que requisitaram a Polícia Rodoviária de São Carlos que demorou um bocado para aparecer e fez o registro do acidente.

O Caminhão, no qual por pouco não fui pinguipongueado pela Reunidas, logo foi embora e não sei quem é; o pessoal do DER, no qual por pouco também não fui jogado contra ao atravessar a pista, também logo foram embora e assim, acabei em pouco tempo, somente não fiquei só porque um amigo (José Roberto) estava trabalhando em Jaú e foi até lá para me dar o apôio necessário.

Compareceu no local um atendente do DER que trabalha com as caminhonetes à beira da rodovia, que utilizou-se bravamente de um grande pé de cabra, para poder abrir parte do porta malas de onde retiramos meus pertences, mala de viagem e diversas pastas contendo documentos profissionais, e minha pasta pessoal onde carrego os disquetes e CDRom contendo meu banco de dados de 30 anos de trabalho, todas parcialmente danificadas; quando demos por falta do meu notebook que estava no banco de trás do carro.

Não sei quantas voltas rodopiei pelo asfalto, nem como não bati no caminhão da frente e no caminhão que vinha em sentido contrário e estacionou logo que eu fiquei embutido no barranco; e como o vidro de trás quebrou-se acredito que o notebook possa ter sido jogado fora em uma das voltas, mas apesar de nossas buscas (eu e o José Roberto) pelo local, nada achamos.

Quanto ao Santana, ainda não sei o que vai acontecer, nem quanto ao notebook; dos quais registrei o boletim de ocorrência de sinistro e devo aguardar; quanto aos dados do notebook, não tive uma perda muito grande, pois fiz o último backup total há apenas 10 dias, antes de ir para a Convenção dos Contabilistas, onde não usei o notebook, depois fiquei alguns dias em reuniões, onde também não usei e assim, nada de importante foi perdido.

Acabei de combinar com o José Roberto que irá amanhã cedo à São Carlos fotografar o Santana e depois irá para Jaú, e no caminho, vai parar novamente no local para ver se acha o notebook.

Quanto a saúde, Graças à Deus, que mais uma vez demonstrou que cuida de nós, somente sofri uma pequeníssima luxação na canela esquerda.

Como toda história, deve haver uma moral, deve ser retirada uma lição, deve ser aproveitado o fato como um delimitador de tempo, que defina uma nova vida, um novo tempo em termos comportamentais; e eu, que sempre aproveitei fatos importantes na minha vida, para mudar o meu ser humano, certamente vou mudar o que for possível e brigar comigo mesmo para mudar o que não for possível no momento.

E depois, dizem que é mera mentira, aquela história retratada pela Rede Globo em uma novela das 7 há pouco tempo, onde um tal de João, fotógrafo, ganhou uma oportunidade de mais tempo de vida, para consertar o que havia feito ao longo da sua vida.

Realmente devo aceitar a “Benção Divina” que recebi e tentar mudar o rumo das coisas.

Ah! Quanto à moral da história?

Não devemos entrar em nuvem de fumaça nenhuma na estrada, aliás, nem de neblina e muito menos de chuva. Se teimarmos, devemos fazer um pequeno teste; basta colocarmos quatro pessoas, duas indo de leste para oeste e duas vindo de oeste para leste, em um corredor de 1,50 mts de largura, pedirmos que se movimentem rapidamente, e em seguida apagarmos as luzes.

É o que tinha para relatar, registrando como forma de agradecimento por ainda continuar vivo e poder levar minha família adiante.

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