Sofistas e sofismos

Autor: Walmir da Rocha Melges – 27 de março de 2014

Alguns pensadores da velha Grécia fundaram uma linha de pensamento que os classificaram como sofistas, qual sejam “aqueles que se acostumaram”, e disto fizeram profissão de fé, de ARGUMENTAR, com a mesma eloquência, veemência, profundidade e sabedoria, tanto a FAVOR como CONTRA, “qualquer tese ou assunto”.

É claro que o único objetivo disto, argumentar contra ou argumentar a favor, tinha um só objetivo, qual seja o de GANHAR QUALQUER DISCUSSÃO.

Se analisarmos esta questão, percebemos que se trata de “uma forma de comportamento”, um “modus operandi”, e se nos aprofundarmos no assunto constatamos que com este proceder a preocupação deixa de ser uma discussão em torno do certo x errado, do legal x ilegal, do bom ou mau, mas sim e tão somente, transforma-se em uma questão de ENCARAR qualquer discussão ou tese como uma BATALHA, seguido da única preocupação de GANHAR A BATALHA.

Sofismo, segundo a Wikipédia, é o ato de “fazer raciocínios capciosos”. Em filosofia, é um raciocínio ou falácia onde a refutação apresenta uma conclusão que aparenta a certeza, a verdade, utilizada quando se quer defender algo que em si é falso e confundir o contraditor.

Diz ainda a Wikipédia que não devemos confundir os sofismas com os paralogismos pois os primeiros – sofistas – procedem da má fé, enquanto que os segundos, procedem com ignorância.

Protágoras inaugurou a ideia de que a verdade depende da experiência pessoal, e passou então a impressão de que o indivíduo, beneficiado pela sua eloquência poderia vencer as discussões e assim tornar-se detentor da verdade, não pela realidade dos fatos, mas sim, pela forçada sua retórica, e Górgias, também valorizando tão somente o poder da retorica, desenvolvia raciocínios capazes de sustentar fatos e opiniões até absurdos, no afã de convencer os seus ouvintes e contraditórios baseado apenas no seu talento argumentativo.

Górgias deixou centenas de pensamentos e dentre eles uma reflexão sobre três teses, a primeira, dizendo que NADA EXISTE, a segunda, SE ALGO EXISTISSE, NÃO PODERIA SER PENSADO, e a terceira SE ALGO EXISTISSE E PUDESSE SER PENSADO, NÃO PODERIA SER EXPLICADO.

Pessoalmente eu emendaria as teses de Górgias da seguinte forma: SE ALGO EXISTISSE, PUDESSE SER PENSADO E PUDESSE SER EXPLICADO, “CERTAMENTE NÃO SERIA ENTENDIDO”. Justifico minha emenda com o seguinte exemplo:

Existe a corrupção política. Podemos pensar na sua existência pois a prova está nos tribunais. Podemos explicar a sua existência pois as decisões judiciais foram calcadas não somente em depoimentos, mas, principalmente, em provas materiais (fotos e documentos), porém, MESMO ASSIM, o povo teima em não entender o real significado da corrupção na sua vida pessoal e teima em eleger as mesmas pessoas, que um dia já foram condenadas dentro da legalidade e racionalidade.

Mas esta não é a parte triste da história pois ela ainda nos reserva desdobramentos uma vez que falta ainda uma parte neste silogismo onde aquilo que existe – a corrupção – já foi pensada e explicada, em seguida não foi entendida, e mesmo que tivesse sido entendida, ela não seria aceita (a necessidade de não aceitá-la), o que permitiria, como permite a sua continuidade – da corrupção.

Segundo alguns, esta disposição de Górgias foi apenas uma brincadeira para assustar ouvintes, e segundo outros, foi uma forma de expor uma radical forma de ceticismo, o que fica, em tese, comprovado, pela minha emenda.

Voltando as vacas frias, vejo que é ledo engano daqueles que possam pensar que os sofistas morreram e desapareceram, pois este mesmo proceder podemos encontrar nas lutas transformadoras que levaram a sociedade do campo a cidade, e do chão das fábricas aos ambientes menos opressivos, como a época da qual participou ativamente um alemão que ficou conhecido como Marx, porém, se retrocedermos um pouquinho e nos debruçarmos sobre Nicolau Maquiavel, podemos encontrar, em suas cartas, os mesmo traços que demonstram que aquele estigma – argumentar apenas para ganhar, mesmo sem base real – transformou-se em uma catinga social que continua perseguindo, talvez maquiavelicamente (mutação do termo que demonstra distorção da realidade, da verdade) a sociedade.

Se você, leitor, ao final da leitura desta crônica, concluir já ter visto ou ouvido algo sobre a continuidade desta comportamento, deste proceder, saiba que pensou certo, pois aqueles, se foram, mas não estamos ainda livres daquele proceder tergiversativo. Basta tentarmos entender o que existe por detrás do pano, ao assistirmos as reportagens radiofônicas, impressas e televisivas, quando iremos constatamos que o mesmo mal – existência dos sofistas e seus sofismos – nos aflige e nos oprime.

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